quarta-feira, 20 de julho de 2016

Por que a política deve ser reinventada?



POR Matthias Bianchi, diretor de Assuntos do Sul





O mundo está mudando e os sistemas políticos existentes nas democracias ocidentais parecem não estar à altura deste momento.






Cada região e país "apodrece" de seu jeito.


Na América Latina, a resposta é um movimento em direção à afirmação das bandeiras mais conservadores. E isto não se resume à vitória de Mauricio Macri na Argentina, ao processo de impeachment de Dilma Rousseff no Brasil ou à vitória da oposição nas eleições legislativas da Venezuela.



Recentemente, tivemos o triunfo de Horacio Cartes no Paraguai, a vitória de Pablo Kuczynski no Peru, a derrota de Evo Morales num referendo popular na Bolívia e o declínio da correísmo no Equador.



A queda na cotação das commodities no mercado internacional e as contradições dos governos progressistas ajudam a explicar esse movimento pendular.



No entanto, o que está no centro da discussão não são políticas progressistas dos governos da última década, mas a própria política.

Estudo conduzido pela Assuntos Del Sur, com 1,3 mil líderes políticos e sociais da região, mostrou que há uma preocupação latente em relação à forma obscura e vertical como a política tem sido exercida na maioria dos países do continente.



Enquanto isso, nas ruas, nos parques e nas universidades assistimos ao surgimento de ativistas que acreditam e valorizam um jeito diferenciado de se fazer política.

Este movimento tem resultado no surgimento, por toda a América Latina, de grupos de ativistas das mais variadas correntes e com as mais diversas agendas, tais como: o # YoSoy132, o #VemPraRua, # o YaMeCansé e #Yasunidos.


O traço em comum é a atuação baseada na pluralidade, na colaboração e nas práticas horizontais de gestão que diferem diametralmente da cultura do establishment político atual. Seja ele progressista ou conservador.



Um fator chave na análise deste fenômeno é a questão demográfica: nunca houve tantos jovens na região: 165 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos de idade.


Trata-se da primeira geração de adultos nascidos e criados na democracia e que são participantes ativos na Revolução Digital.


Parece que estamos diante de um novo "demos" na região que não é contestada pelos "Cratos".



Este "demos" emergente tem cada vez mais entrado em conflito com os governos da região, mostrando as contradições do sistema em relação aos mecanismos de gestão da economia, de preservação do meio ambiente e o modo como são geridos os meios de comunicação (rádio, TV e jornais), além da relação dos políticos com empresas e organismo que garantiram sua chega ao poder.


As reivindicações dos jovens têm por base a criação de mecanismos que permitam maior transparência nas áreas política e administrativa do setor público, garantindo o acesso da sociedade às decisões governamentais.



Neste contexto, não deveria nos surpreender que mesmo as lideranças de centro-direta e de direita que chegam ao poder têm sua legitimidade contestada por ativistas, especialmente os grupos ligados à juventude.


Até porque, a ascensão destes grupos não se deu por seus próprios méritos, mas sim pela fadiga dos partidos e dos políticos que os antecederam no poder.



Na think tank Assuntos Del Sur estamos trabalhando para apoiar o processo de experimentação política que brota em diversos cantos da América Latina. Este trabalho é conduzido por meio do projeto Mucho con Poco que tem por objetivo criar redes de diálogo e de capacitação, baseadas na construção coletiva. Com isso, esperamos dar a nossa contribuição para uma mudança de paradigma na cultura política da região.


O desafio que nos é apresentado hoje é garantir que essas iniciativas tenham força suficiente para permear as instituições, possibilitando a adoção de mecanismos de poder baseados na participação e na colaboração de todos os agentes da sociedade.



É com isso em mente que a Asuntos Del Sur realiza sua terceira oficina no Brasil.


O encontro, que acontece de 22 a 24 de julho, no Rio de Janeiro, vai reunir quilombolas, moradores de favelas, estudantes e ativistas de diferentes regiões do Brasil.

Nossa ambição é que a elaboração de propostas inovadoras na política possam reduzir os riscos representados pelo avanço do nacionalismo extremado e do populismo como vemos nos Estados Unidos e na Europa.


* Matthias Bianchi, doutor em ciência política, diretor de Assuntos do Sul.

ORIGEM  DO TEXTO http://www.clarin.com/br/politica-deve-reinventada_0_1616838446.html