quinta-feira, 7 de julho de 2016

Cientistas revelam uma nova chave do envelhecimento

O estudo dedicou nove anos para pesquisar a interação entre o genoma nuclear e o genoma mitocondrial como parte do envelhecimento. Lukas Budimaier

Estudo sugere que a interação entre os dois genomas de um indivíduo pode prolongar a vida
A pesquisa espanhola, feita com ratos, também fala em evitar a obesidade, o diabetes e tumores

por Nuño Domínguez

   


Há pessoas que aparentam 50 anos, mas têm 65. Outras comem de tudo e nunca engordam. Há quem viva 100 anos bebendo e fumando, e outros que envelhecem em poucos anos, sem que ninguém, nem sequer os melhores cientistas do mundo, saibam explicar exatamente por quê. Agora, um estudo com ratos revela um processo biológico pouco conhecido que pode influir num envelhecimento saudável: a interação entre os dois genomas.


A maior parte da informação genética que herdamos de nossos pais está no genoma nuclear, o extenso livro de instruções para a vida que contém 24.000 genes e três bilhões de letras. O novo estudo, dirigido por cientistas espanhóis, centra-se em outro genoma muito menor, o das mitocôndrias. Em cada célula do corpo pode haver centenas, inclusive milhares destes orgânulos encarregados de gerar energia. Cada um inclui um genoma de 16.000 letras e 37 genes, sempre herdados da mãe. Já se suspeitava que tivessem um papel no envelhecimento, ainda que poucas pesquisas tivessem tentado mostrar exatamente qual seria.

“Passamos nove anos acompanhando 20 gerações de ratos”, diz ao EL PAÍS José Antonio Enríquez, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Cardiovasculares e principal autor do estudo, publicado nesta quinta-feira na Nature. O trabalho contou com a colaboração das universidades de Saragoça e Santiago de Compostela, além do Conselho de Pesquisas Médicas do Reino Unido.
À direita, camundongo com o genoma mitocondrial ‘jovem’, e à esquerda outro da mesma idade com o genoma de envelhecimento acelerado. ampliar foto
À direita, camundongo com o genoma mitocondrial ‘jovem’, e à esquerda outro da mesma idade com o genoma de envelhecimento acelerado. CNIC

Todos os ratos tinham um genoma nuclear idêntico, para que os cientistas pudessem testar os efeitos de genomas mitocondriais diferentes. Os resultados mostram que basta uma mudança relativamente pequena no genoma mitocondrial para provocar mudanças notáveis no ritmo de envelhecimento e nas doenças correlatas. O estudo mostra que um dos dois genomas mitocondriais analisados prolonga a vida dos roedores em 16% e os torna menos propensos à obesidade, ao diabetes e inclusive a alguns tumores.

Enríquez afirma que a chave desse envelhecimento saudável está na interação entre ambos os genomas. Um dos dois genomas mitocondriais analisados gera mais oxidantes (ROS), um grupo de moléculas que inclui os radicais livres e que tradicionalmente foram apontadas como culpadas por acelerar o envelhecimento. “Se os níveis desses compostos disparam é péssimo, porque eles danificam as membranas celulares, mas se os níveis não subirem tanto o que acontece é que a célula ativa um mecanismo de autorreparação que gera membranas novas e elimina as velhas”, explica Enríquez. “Este processo de estresse controlado em longo prazo renova a célula, pois a faz queimar mais gorduras e preservar açúcares, o que pode explicar por que os ratos são menos obesos e não sofrem desequilíbrios de açúcar que poderiam desencadear o diabetes”, detalha. Segundo Enríquez, o estilo de vida e a interação entre os dois genomas são cruciais para o envelhecimento saudável observado nos animais.


Tem aplicações em humanos?

Quais são as implicações desse estudo para os humanos? É difícil saber ainda, segundo vários especialistas em envelhecimento e células-tronco. Os ratos usados têm um alto grau de endogamia, por isso é preciso repetir os experimentos com animais mais representativos da variedade genética da vida selvagem e também com outras espécies, afirmou Dusko Ilic, pesquisador do Imperial College, de Londres, ao Science Media Centre. Ainda assim, a descoberta apresenta um “conceito fascinante e surpreendente”, ressalta.

“Como todo bom trabalho, responde a algumas pergunta e propõe muitas outras”, opina Manuel Collado, pesquisador de células-tronco e envelhecimento do Instituto de Pesquisas Sanitárias de Santiago de Compostela. Ele considera que o trabalho fornece dados interessantes, pois se pensava que o resultado da substituição mitocondrial seria o contrário. O que não está tão claro é o que provoca o envelhecimento saudável observado. “Na minha opinião, não é que estejam transmitindo ao animal a capacidade de viver mais tempo, e sim que o simples fato de mudar o seu genoma mitocondrial inicia o processo”, argumenta.

Este mecanismo se ativa desde que o indivíduo nasce e tem repercussões ao longo de toda a sua vida. O genoma mitocondrial do envelhecimento acelerado pode ser mais vantajoso na vida selvagem, porque permite ao animal gerar mais mitocôndrias e, portanto, mais energia em um ambiente de competição com outros machos, onde é comum morrer jovem nas mãos de outros machos ou de predadores. Entretanto, no pacífico ambiente de um laboratório, o genoma mitocondrial jovem contribui em longo prazo para uma vantagem, raciocina Enríquez. Seus resultados agora abrem caminho para explorar os efeitos de outros perfis genéticos mitocondriais. Nos humanos, existem dezenas destas linhagens em cada continente.

Enríquez opina que, no futuro, seria possível aplicar esses conhecimentos à medicina. Saber como interagem o genoma mitocondrial e o nuclear nos permitirá “saber como se é e o que é preciso fazer para ficar o mais saudável possível, incluindo a forma como você vai reagir ao exercício, à dieta e aos medicamentos”, assinala.

O estudo também tem importantes implicações para os futuros “bebês com três pais”, crianças que nasceriam sem a doença genética mitocondrial que herdariam das suas mães, graças a uma técnica de modificação de embriões que já foi aprovada no Reino Unido. Os autores do estudo observam que substituir as mitocôndrias pode alterar o metabolismo do receptor do transplante de mitocôndrias. “Como técnica não é perfeita e não elimina em 100% as mitocôndrias defeituosas”, alerta Enríquez. Sua equipe agora está investigando os efeitos metabólicos de compartilhar dois genomas mitocondriais. Até que eles sejam conhecidos, acrescenta, “é importante que os transplante de mitocôndrias sejam feitos com doadores compatíveis, com um perfil o mais parecido possível do receptor”.

ORIGEM http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/06/ciencia/1467801750_205237.html