sexta-feira, 17 de junho de 2016

O acerto definitivo dos Smiths: 30 anos de ‘The Queen is Dead’



A canção de amor fatalista de Morrisey e Marr continua a brilhar como no primeiro dia

POR Carlos Pérez de Ziriza


Não é preciso insistir muito nisto: algumas das mais lindas pérolas da história do pop são canções alocadas na parte teoricamente menos nobre de seus álbuns e que não foram nem sequer escolhidas como singles. Não fizeram parte do trio inicial nem abriram o lado B. E também não integraram nenhuma lista de sucessos. Se fizéssemos uma pesquisa entre os fãs, certamente There is a light that never goes out teria todas as condições para ser escolhido como o melhor tema jamais composto pela dupla formada por Steven Morrissey e Johnny Marr. Mas, naquele momento, quando a gravadora Rough Trade teve de escolher uma segunda amostra para o conteúdo do terceiro álbum — convencional, não com lados B nem tomadas alternativas — do The Smiths (o primeiro fora The Boy With The Thorn in His Side, vários meses antes), deparou-se com uma firme negativa da banda, que apostou em Bigmouth Strikes Again.



Dessa forma, davam mais um passo em sua relação complicada com Geoff Travis, o chefão do selo londrino. E voltavam a manifestar a indomável autonomia de seu traço criativo, porque, embora quisessem fazer sucesso (a obsessão de Morrissey com a posição de cada um de seus discos nos charts é proverbial), queria conquista-lo à sua maneira. “Admito que fui um tanto impopular, mas acho que acertamos”, disse Johnny Marr muitos anos depois. “Como fã do pop, reconheço que todos os meus álbuns favoritos têm alguma canção que poderia ter sido um single mas não foi, e There Is a Light... pertence a esse grupo, sendo uma canção brilhante e superior de álbum, e está sem dúvida no topo”, conclui. E o tema não foi, por fim, escolhido para abrir o apetite diante da iminente edição do álbum The Queen is Dead (1986).

Ironicamente, ela acabou saindo como compacto simples em 1992, quando a Warner lançou uma das primeiras compilações do grupo, já então dissolvido. Até mesmo Morrissey cometeu mais uma de suas clássicas mudanças de opinião ao introduzi-la como single da gravação ao vivo que resultou em Live At Earls Court, em 2005, embora tenha dito, de modo a não assumir a responsabilidade, que a negativa de usá-la inicialmente como compacto simples havia sido capitaneada na época por Marr. Mas aquela afirmação clara do guitarrista se casa diretamente com o pressentimento dos apaixonados devoradores da cultura pop que eram os Smiths, capazes de assimilar dezenas de ingredientes para ingeri-los e depois vomitá-los em um discurso já configurado como algo plenamente atribuível ao seu próprio talento: embora não pareça, as impressões digitais de The New York Dolls, o free cinema britânico dos anos 60, The Shirelles e James Dean estão presentes nos sulcos de seus discos. Os primeiros, com um empréstimo lírico de seu Lonely Planet Boy. O segundo, com um outro empréstimo, dessa vez um diálogo entre os atores Albert Finney e Shirley Anne Field. Já as terceiras, com uma inesperada inspiração na letra de seu sucesso Will You Still Love Me Tomorrow?. E o quarto, com um certo espírito herdado de Rebelde sem causa, seu filme mais emblemático. Isso tudo, para não falar na sua característica intro, com apenas quatro segundos que Johnny Marr criou sabendo que lhe serviriam para brincar com as especulações da imprensa musical, para verificar, assim, não sem um tom de deboche, se esta atribuiria a autoria aos Rolling Stones, que fizeram uma versão de Hitch-Hike de Marvin Gaye em 1965, ou ao The Velvet Underground, quando estes refizeram aquele cânone em There She Goes Again, em 1967.

Seja como for, There Is a Light That Never Goes Out, com sua glorificação de um amor tão desesperado que vislumbra a perspectiva de um acidente de tráfego fatal como salvo conduto para o paraíso, com seus inesquecíveis arranjos de cordas (criados por Marr com um Emulator: nada de custos elevados) e com a forte — e mais balanceada do que nunca — interpretação vocal de Morrissey já em estado de graça, é, sem dúvida, o acerto definitivo dos Smiths. Quatro minutos que contêm em si o ethos de uma banda inimitável em seus momentos de plenitude, justamente no momento em que o pop com carimbo de independente — cujos contornos eles tanto haviam ajudado a definir — estava mais próximo do que nunca de encontrar alguns traços comuns, embora ainda então embrionários, naquela fita cassete que o New Musical Express distribuiu com o nome de C-86. O baixista do quarteto de Manchester, Andy Rourke, definiu a canção, certa vez, como a Candie in the Wind indie: talvez fosse melhor baixar, aqui, um véu bem grosso.

Os trintas anos que se passaram não fizeram mais do que aumentar a sua legenda, sem estragar em nada as suas propriedades. Uma boa demonstração disso é infinidade de aproximações que foram feitas, quase sempre em versões com resultado — inevitavelmente — inferior. Destaca-se, por mérito próprio, a que Neil Hannon lançou à frente do The Divine Comedy em 1996, dando um tom solene, com um pop de câmara desprovido de jovialidade, ao seu décimo aniversário. Dum Dum Girls, Noel Gallagher, The Lunksmiths e Xoel López à frente de deluxe a abordaram com uma respeitosa reverência. Até mesmo o californiano Vitamin String Quartet lhe deu o tratamento de cordas real que lhe fora negado na origem. E inclusive a insolente Miley Cyrus se dedicou a exumá-la nos palcos em formato acústico, sem encobri-la com penduricalhos sintéticos nem lhe acrescentar pirotecnias, certamente porque é melhor não aumentar o estrago além do necessário. Mikel Erentxun, com efeito, também recebeu muitas pedradas de todos os cantos do mundo, embora a sua releitura, de 1992, fosse certamente digna, tendo tido ele ao menos a qualidade de adaptá-la para o castelhano com fluidez. São os pedágios que se tem de pagar, de toda maneira, quando se procura reescrever alguma coisa a partir de grandes texto

ORIGEM DO TEXTO http://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/13/cultura/1465829506_530175.html