quarta-feira, 29 de junho de 2016

As cinco drogas mais viciantes e seus efeitos no cérebro

Agricultores plantam papoula para a produção de heroína na província de Jalalabad (Afeganistão). REUTERS

A capacidade de viciar depende de fatores como a ativação do sistema da dopamina do cérebro

por Eric Bowman

   


Quais são as drogas mais viciantes? A pergunta parece simples, mas a resposta depende de para quem se pergunta. Segundo diferentes especialistas, o potencial de vício de uma droga pode ser avaliado em função do dano que ela causa, de seu valor na rua, de quanto ativa o sistema da dopamina do cérebro, do prazer que dizem causar, dos sintomas de abstinência que provoca e da facilidade com que pegará quem a experimenta.



Existem outros aspectos para medir o potencial de vício de uma droga, e até há pesquisadores que afirmam que nenhuma é viciante sempre. Dada a diversidade de opiniões, uma maneira de classificar as substâncias causadores de vício é consultar grupos de especialistas. Em 2007, David Nutt e sua equipe pediram a diversos especialistas que fizessem uma classificação, e descobriram várias coisas interessantes.


1. Heroína

Os especialistas consultados por Nutt e sua equipe situaram a heroína como a droga mais viciante e lhe deram uma pontuação de 3 em 3. A heroína é um opiáceo que faz o nível de dopamina do sistema de recompensa do cérebro aumentar até 200% em animais de laboratório. Além de ser provavelmente a droga mais viciante, a heroína também é perigosa porque a dose que pode causar a morte é só cinco vezes maior que a necessária para ficar chapado.

A heroína foi classificada como a segunda droga mais nociva considerando o dano que causa tanto aos consumidores como à sociedade. Segundo estimativas, o mercado de opiáceos ilegais, incluída a heroína, movimentou 68 bilhões de dólares no mundo inteiro em 2009.
2. Cocaína

A cocaína interfere diretamente no uso que o cérebro faz da dopamina para transmitir mensagens de um neurônio a outro. Basicamente, ela impede que os neurônios desativem o sinal da dopamina, causando uma ativação anormal do circuito de recompensa do cérebro. Em experimentos com animais, a cocaína fez os níveis de dopamina se elevarem mais de três vezes acima do normal. Calcula-se que existam entre 14 e 20 milhões de usuários de cocaína no mundo e que, em 2009, o mercado dessa droga movimentou cerca de 75 bilhões de dólares.

A cocaína interfere diretamente no uso que o cérebro faz da dopamina para transmitir mensagens de um neurônio a outro

Os especialistas classificaram o crack como a terceira droga mais prejudicial, e a cocaína em pó, que produz um efeito mais suave, como a quinta. Cerca de 21% das pessoas que experimentam a cocaína se tornarão dependentes em algum momento da vida. Essa droga é parecida com outros estimulantes capazes de viciar, como a metanfetamina – que representa um problema cada vez maior à medida que se torna mais acessível – e a anfetamina.
3. Nicotina

A nicotina é a principal substância viciante do tabaco. Quando se fuma um cigarro, ela é absorvida rapidamente pelos pulmões e transmitida ao cérebro. Segundo o grupo de especialistas consultado por Nutt e sua equipe, a nicotina (o tabaco) é a terceira substância mais viciante.

Mais de dois terços dos norte-americanos que já fumaram dizem ter se tornado dependentes ao longo da vida. Em 2002, a Organização Mundial da Saúde calculou que havia mais de 1 bilhões de fumantes e, até 2030, a previsão é que o tabaco acabe com a vida de mais de oito milhões de pessoas por ano. Os animais de laboratório têm a sensatez de não fumar. As cobaias, no entanto, podem apertar um botão para receber nicotina diretamente na corrente sanguínea, o que faz os níveis de dopamina do sistema de recompensa do cérebro aumentarem entre 25% e 40%.
4. Barbitúricos (“calmantes”)

Os especialistas classificaram o crack como a terceira droga mais prejudicial para o corpo humano

Os barbitúricos são drogas inicialmente utilizadas para tratar ansiedade e induzir o sono. Interferem nos sinais químicos do cérebro, fazendo diversas regiões cerebrais pararem de funcionar. Em doses baixas produzem euforia, mas em doses mais elevadas podem ser letais porque inibem a respiração. A dependência dos barbitúricos era frequente quando esses medicamentos podiam ser facilmente adquiridos com receita, mas diminuiu de forma drástica desde que foram substituídos por outros. Isso evidencia o papel que o contexto desempenha no vício: se não for facilmente acessível, uma droga viciante não pode causar muito dano. Os especialistas situaram os barbitúricos como a quarta substância mais viciante.
5. Álcool

Apesar de ser legal na maior parte dos países ocidentais, os especialistas consultados pela equipe de Nutt o pontuaram com 1,9 dem 3. O álcool causa múltiplos efeitos no cérebro, em experimentos de laboratório com animais aumentava os níveis de dopamina no sistema de recompensa cerebral entre 40% e 360%. Além disso, quanto mais os animais bebiam, mais os níveis subiam.

Cerca de 22% das pessoas que bebem desenvolverão dependência do álcool em algum momento da vida. A Organização Mundial da Saúde calcula que, em 2002, 2 bilhões de pessoas consumiram álcool, e três milhões morreram em 2012 por danos causados pela bebida em seu organismo. Outros especialistas classificaram o álcool como a droga mais prejudicial.

Eric Bowman é professor colaborador de Psicologia e Neurociência na Universidade de St Andrews. Cláusula de divulgação: Eric Bowman recebeu recursos do Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido.ORIGEMhttp://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/27/ciencia/1467041169_218109.html