sábado, 7 de maio de 2016

E Axl Rose fez mesmo justiça aos AC/DC


POR MARIO LOPES


Estão iluminados a vermelho vivo os cornichos que vários milhares têm na cabeça. Plateia iluminada, palco iluminado. Ei-los que chegam. Agora é a sério. 21h04.

A introdução é épica, como habitualmente. Nos ecrãs, astronautas caminham pela lua até se depararem com o famoso logótipo da banda, em letras incandescentes. O logótipo transformar-se-á em cometa em direção à Terra. Estão a chegar. Explode a pirotecnia, surge a banda. Angus Young no uniforme escolar. E, no centro, o homem em quem se concentram todas as atenções. Axl Rose no seu trono. Canta sentado, culpa da lesão sofrida recentemente, e o seu canto gritado enche o espaço. Não haverá correrias, mas a estridência da voz serve bem os AC/DC. "De repente transformou-se num dia solarengo. Prazer em conhecer-vos", cumprimenta ao final da segunda canção. Ouvimos Rock or bust e Shoot to thrill. A locomotiva AC/DC está em andamento e Axl Rose não parece deslocado no papel.

Ao final da tarde, o sol aparecera mesmo nesta invernia de Maio e o mar de impermeáveis frente ao palco lança gritos de satisfação e aproveita para fotografar o momento. Tal aconteceu quando Tyler Bryant & the Shakedown anunciaram ao que vinham: "Are you ready to rock'n'roll?". E sim, perante o vento cortante e a chuva, a salvação será mesmo o rock'n'roll.

Palmas a marcar o ritmo para aquecer, cornichos de mafarrico sobre o capuz dos impermeáveis a balançar e vamos a isto. São 20h. Só faltava uma hora para vermos o que seria dos AC/DC com Axl Rose.


Paulo Rilhó e Isa Viegas, roucos porque a preparação para o rock já começara no dia anterior, esperam que Axl "se porte bem e que faça o seu papel", ou seja, substituir o melhor possível Brian Johnson. Acham que o fará. Afinal, a chuva parara e o sol brilhara quando se ouviu a primeira banda. "São Pedro gosta do rock". Nem eles, nem Nuno Serrano, noutro canto do recinto em que a areia se transformou em lama, qual festival em Inglaterra, pensou vender os bilhetes quando Axl Rose foi anunciado como substituto de Johnson. Ou melhor, Nuno até pensou duas vezes, mas a perspectiva de ver pela primeira vez os AC/DC falou mais alto. "Não sei se voltam a Portugal. Não podia perder a oportunidade. Vamos ver se o Axl Rose se integra bem na banda". Era essa, de facto, a pergunta que passava pela cabeça de toda a gente no Passeio Marítimo de Algés.

O concerto no Passeio Marítimo de Algés foi o terceiro da banda em Portugal, depois das passagens pelo Estádio de Alvalade, em 2009, e da actuação há vinte anos no Estádio do Restelo. Desta vez, porém, muito mudou – e, no último mês, drasticamente. A saída de Malcolm Young, o guitarrista fundador, irmão de Angus Young, a quem foi diagnosticada demência, foi um golpe duro, compensado com a entrada na banda do seu sobrinho, Stevie Young. Pouco tempo depois, o baterista Paul Rudd, envolvido num processo judicial por posse de drogas e tentativa de assassinato, é afastado para dar lugar a Chris Slade, que pertencera aos AC/DC entre 1989 e 1994.


A tudo isso sobreviveram os AC/DC. O grande teste, porventura maior ainda que a substituição de Bon Scott, o carismático vocalista falecido em 1980, chegou em Março, quando Brian Johnson anunciou que se retirava da digressão americana que os AC/DC cumpriam naquela altura depois de os seus médicos terem confirmado que arriscava surdez total caso continuasse a subir a palco. Vocalista da banda há mais de três décadas e, a par de Angus Young, a face mais reconhecida e idolatrada dos AC/DC, Johnson nunca seria fácil de substituir.

A escolha de Axl Rose, fã de longa data da banda, provocou um pequeno tumulto nas redes sociais. Nada que atemorizasse os AC/DC. Chegaram a Portugal 15 dias antes do concerto para duas intensas semanas de ensaios e sábado à noite subiram a palco para tocar todos os clássicos de uma longa e atribulada carreira.
Nuno Ferreira Santos

ORIGEM DO TEXTO E DAS FOTOS: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/acdc-1731296

SEGUNDO TEXTO: Nada havia a temer: os AC/DC com Axl Rose ainda são os AC/DC

Mário Lopes

07/05/2016 - 23:23

(actualizado às 07:17 de 08/05/2016)

Todos os olhares se concentraram no vocalista dos Guns N'Roses para constatar uma evidência: seguro do seu papel, Axl Rose fez justiça à banda e ao seu legado. No Passeio Marítimo de Algés, prova superada com distinção.

 Havia muita expectativa para o concerto de sábado no Passeio Marítimo de Algés. Porque, à partida, não se tratava apenas de mais um concerto dos AC/DC. Como poderia sê-lo, se pela primeira vez em 36 anos não estaria em palco Brian Johnson, o vocalista que em 1980 substituiu com autoridade o julgado insubstituível Bon Scott? Como poderia sê-lo se no lugar de Johnson, obrigado a retirar-se por risco de surdez, surgiria Axl Rose, o sempre controverso vocalista dos Guns N'Roses que, após ser anunciado como vocalista temporário da banda de Highway to hell, provocou nas redes sociais acessos de irritação e desespero entre os fãs?

A expectativa era, portanto, muita. Não só entre o público reunido no Passeio Marítimo de Algés, que se terá aproximado dos 50 mil espectadores – os bilhetes devolvidos quando da revelação de quem seria o novo vocalista terão sido revendidos a novos interessados –, mas também mundo fora: tratava-se do primeiro concerto da nova formação e todos queriam testemunhar do que ela seria capaz. Os sentimentos iam da simples curiosidade à expectativa mórbida de ver um desastre a acontecer – por alguma razão estavam mais de três dezenas de órgãos de imprensa estrangeira acreditados; por alguma razão eram milhares os espanhóis, ingleses ou franceses que viajaram até Portugal para serem espectadores da estreia de Axl com os AC/DC.
Os famosos cornichos de AC/DC Nuno Ferreira Santos

Para tornar toda a envolvência mais dramática, as previsões meteorológicas assustavam-nos com a perspectiva de chuva intensa, vento forte e, possivelmente, trovoada. Tudo conjugado para a tempestade perfeita. Mas quando a banda suporte, os americanos Tyler Bryant & The Shakedown, tocou as primeiras notas, viu-se sol pela primeira vez na tarde chuvosa e cinzenta, o público protegido com impermeáveis e de cabeça decorada com chifres de mafarrico (ou cornichos de AC/DC, para sermos precisos) aplaudiu alegremente a aberta, e a água deixou de cair dos céus. E depois, sem chuva à vista, perspectiva de temporal já esquecida, começou a acção a sério.

À primeira canção parece evidente. À segunda, o clássico Shoot to thrill, não temos dúvidas. Axl Rose encarna na perfeição o rock'n'roll hedonista, glorificador dos seus excessos e da sua mitologia, de que são feitos os AC/DC

21h04. Nos ecrãs, passa um vídeo de épicos contornos cartoonescos, como é habitual na banda australiana. Astronautas descendo sobre a lua. A voz de Neil Armstrong: “um pequeno passo para o homem, um passo gigante para a Humanidade”. A surpresa: os astronautas deparam-se com uma massa incandescente onde se lê AC/DC. A massa transformar-se-á em cometa acelerando em direcção à Terra e explodirá sobre uma cidade. Essa que era, naquele momento, o Passeio Marítimo de Algés. Explode a pirotecnia, liberta-se o rock'n'roll. Ouve-se Rock or Bust, tema título do último álbum dos AC/DC e da digressão que agora iniciam na Europa. Angus Young com o obrigatório uniforme de colégio e o fiel baixista Cliff Williams atrás de si, bem como o regressado baterista Chris Slade e o guitarrista Stevie Young, sobrinho de Angus e de Malcolm, o guitarrista ritmo tragicamente obrigado a abandonar a banda após lhe ter sido diagnosticada demência. E, ao centro, sentado numa poltrona, o homem em quem se concentram todos os olhares: Axl Rose.

À primeira canção parece evidente. À segunda, o clássico Shoot to thrill, não temos dúvidas. Axl Rose encarna na perfeição o rock'n'roll hedonista, glorificador dos seus excessos e da sua mitologia, de que são feitos os AC/DC. A voz viaja pelas canções com convicção e prazer evidente, e Rose, confinado à poltrona por culpa de uma perna partida, há-de crescer em entusiasmo. Quando muito mais à frente chegamos a Whole lotta Rosie, não nos surpreenderíamos que o homem se erguesse e percorresse o palco nas correrias a que nos habituou nos Guns N'Roses.
Todos os clássicos

Na verdade, o maior elogio seria afirmar que Axl Rose cantou com os AC/DC e que, no fim do concerto, saciados, exclamaríamos: foi “apenas” mais um concerto dos AC/DC – no sentido em que a banda australiana, máquina infalível, teria cumprido novamente com distinção o seu papel de celebração do sagrado riff e da abençoada electricidade com batida segura a condizer. Tendo em conta o contexto, não foi obviamente “apenas” mais um concerto dos AC/DC. Foi o concerto em que ficou provado que nada havia a temer.

Sem alterações substanciais em relação aos alinhamentos que vinham apresentando nos Estados Unidos antes da inesperada saída de Brian Johnson, ouviram-se no Passeio Marítimo de Algés os clássicos de sempre. Back in black para primeira explosão de alegria entre o público, Dirty deeds done dirt cheap para mostrar que Axl Rose não só trata bem a memória de Brian Johnson, mas também a de Bon Scott. Uma titubeante Thunderstruck perante a qual, por ser o hino que é, qualquer falha é perdoada, e Hell's bells para diminuir o ritmo para um andamento mais diabólico enquanto um sino gigante desce das alturas.
O guitarrista brilhar prolongadamente Nuno Ferreira Santos

Angus Young, poço de energia inesgotável, correu de um extremo ao outro do palco, avançou pela passadeira que se estendia sobre a plateia, riffou e solou com o frenesim que é imagem de marca. Saltitou naquele passo que adoptou de Chuck Berry e tocou a rodopiar no chão da plataforma que se foi erguendo no auge da Let there be rock que, imediatamente antes do encore, serviu de cenário para o guitarrista brilhar prolongadamente.

Entrevistada para uma equipa de reportagem francesa, uma fã dos AC/DC defendia que, em alguns momentos, Axl Rose tinha mesmo superado Brian Johnson. Não iríamos tão longe

Axl Rose, por sua vez, foi desde o seu trono um mestre-de-cerimónias sereno e pouco dado a espalhafato. Entre canções, comunicou de forma breve, apresentando Whole lotta Rosie com uma nota biográfica – foi a primeira canção dos AC/DC que ouviu, era ele adolescente e a rádio companhia obrigatória –, ou anunciando, com humor, que a próxima música fora escrita pela banda para descrever a sua vida – título: Shot down in flames. Enquanto vocalista, esteve seguríssimo no seu papel, tecnicamente inatacável. Tanto que, quando tudo terminou, ouvimos de passagem algo que seria impensável algumas horas antes: entrevistada para uma equipa de reportagem francesa, uma fã dos AC/DC defendia que, em alguns momentos, Axl Rose tinha mesmo superado Brian Johnson. Não iríamos tão longe. Brian Johnson “é” os AC/DC e Axl Rose, por razões óbvias, nunca será. Mas durante aquelas duas horas, e certamente nas duas horas que se seguirão nos próximos concertos da digressão, cumpriu o seu papel com distinção.

Tivemos High voltage e T.N.T. e tivemos You shook me all night long e Rock'n'roll train. O corpo de formas exageradas de uma meretriz de saloon insuflável fez a sua aparição em Whole lotta Rosie e o encore trouxe a inevitável Highway to hell, a preciosidade Riff raff e uma épica For those about to rock (we salute you), marcada por disparos de canhão e finalizada com fogo-de-artifício.
Durante duas horas, o rock'n'roll dos AC/DC foi um festim de história e das canções que a compõem Nuno Ferreira Santos

Durante duas horas, o rock'n'roll dos AC/DC foi um festim de história e das canções que a compõem. Montado com empenho e cativante naturalidade pela banda e celebrado efusivamente pelo público. Foram os AC/DC com Axl Rose. Foram os AC/DC, muito simplesmente. E é esse, de facto, o maior elogio que poderemos fazer ao que assistimos no Passeio Marítimo de Algés.