quarta-feira, 12 de agosto de 2015

NÃO SE ILUDAM: A FRANÇA TAMBÉM É HIPÓCRITA, e/ou Hipocrisia à Parisiense


POR;ÁLEX VICENTE
A Justiça francesa acaba de proibir o acesso de menores de 18 anos às salas de cinema que exibem Love, o novo filme do cáustico diretor Gaspar Noé (coproduzido pelo pelo brasileiro Rodrigo Teixeira). Trata-se de um melodrama de alto conteúdo sexual que colocou em pé de guerra os revitalizados círculos ultraconservadores do país. A associação Promouvoir, que luta pela “promoção dos valores judaico-cristãos” e pelo “impedimento do incesto, do estupro e da homossexualidade”, segundo seus estatutos, liderou uma bem-sucedida campanha para impedir que menores possam assistir ao filme.

Love estreou em 15 de julho nas salas francesas com a classificação “desaconselhável aos menores de 16 anos”, após receber o aval do Centro Nacional de Cinema, que concede as classificações para a exploração comercial dos filmes em lançamento. No entanto, o Tribunal Administrativo de Paris ordenou, em 31 de julho, que a qualificação fosse alterada e reservada à entrada aos maiores de 18 anos, após uma denúncia da associação conservadora. A Justiça argumentou que o conteúdo explícito “poderia ferir a sensibilidade dos menores”.

Gaspar Noé não demorou a reagir. “Encontramo-nos diante de um anacronismo absoluto, que é próprio dos reacionários, mas também do Estado Islâmico. O chocante não é o fato de isso existir, mas sim o fato de a França dar razão a eles”, afirmou ele ao jornal Libération. “Meu filme é inofensivo mas parece incomodar. O que me angustia é que, por causa desse tipo de coisa, os diretores e produtores possam começar a ter medo. Existe um risco de que os cineastas e os roteiristas se autocensurem”, declarou o diretor de 51 anos, nascido na Argentina e radicado em Paris desde os anos setenta. Em 2002, Noé já havia provocado escândalo com Irreversível, que continha uma brutal cena de estupro com nove minutos de duração.


Rodado em 3D e com atores desconhecidos, Love é protagonizado por Murphy, estudante de cinema norte-americano residente em Paris, que recebe uma ligação anunciando o desaparecimento de sua ex-companheira Electra, com a qual compartilhou um devastador amour fou. O protagonista evocará então essa relação passional e excessiva que terminou com uma dolorosa separação. E o fará com luxo de detalhes, incluindo sexo a três, encontros em um clube de swing, uma cena com um transgênero (criticada pela transfobia do protagonista) e até mesmo uma ejaculação em close.

Sua elegante atuação e sua vontade de romper com a representação habitual do sexo nas telas não conseguem esconder, entretanto, um enredo bem fraco. Apresentado no último Festival de Cannes com críticas negativas, Love foi divulgado na França como o primeiro filme autoral com cenas de sexo reais.

Nem mesmo o escândalo levou o público às salas: Love não conseguiu seduzir mais de 30.000 espectadores. Sua proibição aos menores não é somente simbólica; pode ter notáveis efeitos econômicos, como sua retirada de alguns cinemas e a diminuição de seu valor na exibição na televisão.

Somente uma última reviravolta poderá salvar Love. O ministério da Cultura apresentou um recurso ao Conselho de Estado, última instância da jurisdição administrativa na França, para revogar essa proibição. Curiosamente, a titular da Cultura, Fleur Pellerin, mostrou-se inicialmente favorável a vetar o filme aos menores e até mesmo exigiu que o Centro Nacional do Cinema reconsiderasse sua decisão inicial “com a esperança de obter uma classificação mais severa”, segundo o produtor e distribuidor do filme, Vincent Maraval, que interpreta em Love um pequeno papel de policial libertino. As reações de boa parte do setor do cinema francês, que denunciou um ataque à liberdade de expressão, forçaram a ministra a voltar atrás. O Conselho de Estado tem agora dois meses para dar a sentença.

Por enquanto, a associação Promouvoir conseguiu nova vitória na defesa por seus valores. A organização foi fundada em 1996 pelo advogado André Bonnet, ligado ao político ultradireitista Bruno Mégret. Desde então, conseguiu com que a justiça proibisse a presença de menores em filmes como Ken Park, Jogos Mortais – O Final 3D e a segunda parte de Ninfomaníaca.

“Há 15 anos, diretores sem escrúpulos querem reintroduzir a pornografia nos circuitos para o grande público”, afirmou Bonnet em uma entrevista ao portal Allociné. “Frequentemente esse cinema tem como objetivo confesso participar na destruição das estruturas sociais e familiares em nome de um libertarianismo sem limites. E mira justamente os menores, como Valmont em Ligações Perigosas, com essa vertigem causada pela perversão dos mais jovens”.

Segundo o Le Monde, Bonnet participou dos recentes embates que a frente ultraconservadora travou contra o governo de François Hollande. Em 2013, acusou o Executivo de querer “eliminar a diferença entre gêneros” na escola e participou da poderosa mobilização conta o casamento homossexual, realizando intervenção em uma reunião na qual comparou o texto que legalizava o casamento com “a ascensão do nazismo e o marxismo-leninismo”.


Contra as referências sexuais

A campanha contra Love é o último exemplo da incessante (e bem-sucedida) mobilização contra a cultura por parte dos grupos ultraconservadores na França. Em junho, um grupo de vândalos jogou tinta em uma obra do escultor Anish Kapoor nos jardins de Versalhes, depois do artista descrever sua escultura como a “vagina da rainha”, em referência ao seu aspecto, que poderia lembrar os órgãos genitais femininos.
Kapoor criticou na época “uma fração minoritária que vê todo ato criativo como um perigo a um passado sacralizado ao extremo”.
Em 2014, uma escultura inflável em forma de apetrecho sexual, do artista Paul McCarthy, foi desinflada em Paris, após gerar críticas do coletivo tradicionalista Printemps Français. Além disso, um grupo de manifestantes de extrema direita conseguiu interromper um espetáculo do coreógrafo Olivier Dubois na região de Vendeia. Protestavam porque os bailarinos estavam nus.

ORIGEM DO TEXTO: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/10/cultura/1439232334_754990.html