quinta-feira, 9 de julho de 2015

PSICOLOGIA » Manipuladores e manipulados


POR MIRIAM SUBIRANA


Há especialistas em manipular a vida alheia e pessoas suscetíveis de serem manipuladas

Perder o medo de não agradar sempre é o primeiro passo para se livrar dos chantagistas

 Você já se sentiu pressionado a fazer algo que não queria? Já se sentiu coagido a dizer sim quando, na verdade, quis dizer não? Quando agimos sob a influência de um outro e nos deixamos levar por suas opiniões, não estamos com o foco em nosso poder pessoal. Para que não nos manipulem, devemos ter claro onde e quando colocar limites. Devemos nos atrever a dizer não, sem medo do julgamento dos outros, do fracasso ou da rejeição. Enquanto tivermos medo de sermos rejeitados, seremos manipulados. Porque esta é precisamente uma das armas do manipulador: “Se não agir da maneira que eu quero, não vou falar mais com você.” O manipulador depende do manipulado e vice-versa. É uma relação de perda de liberdade.


Um ser livre se atreve a dizer não e age baseando-se em suas convicções, sem medo de ficar sozinho ou de ser rejeitado. O sistema não está interessado em seres livres, com força de vontade desenvolvida, que pensem conscientemente, atuem e assumam a responsabilidade por si mesmos. Por isso, somos manipulados em muitos níveis, social, político, midiático, publicitário, nas relações interpessoais


Este artigo está focado na importância de compreender os processos de manipulação interpessoal, em como perceber a tempo que uma pessoa é manipuladora para assim não permitir que nos manipule e em recuperar nosso poder interior.

 Como é a sua personalidade

Embora não exista um perfil próprio dessas pessoas, podemos detectar atitudes próprias das pessoas com tendência a manipular. Isabelle Nazare-Aga define algumas características:

 - Muda de opinião, de comportamento e de sentimentos em função das pessoas e das situações. - Culpa os outros, transferindo a eles a responsabilidade que corresponde a ele ou ela.

 - Critica sem ser notado, desvaloriza e julga. Joga com a ignorância dos outros para demonstrar sua superioridade.

 - Sabe se fazer de vítima para que tenham pena dele.

 - Divide para governar melhor. Mente. É egocêntrico. Quando pode, tenta deixar bilhetes, ligar ou mandar mensagens em vez de se mostrar.

 - Não leva em conta os direitos, necessidades ou desejos dos outros.

 - Espera até o último minuto para pedir, dar ordens ou fazer com que os outros trabalhem.

- Usa a bajulação, dá presentes ou alguns mimos, de repente.

 Entre as formas mais comuns de manipulação está a chantagem emocional, na qual, por exemplo, uma ameaça com terminar um relacionamento se o outro não fizer o que ele quiser; se seus desejos não forem concedidos, chama o outro de egoísta, interesseiro ou insensível. Em vez disso, diz Susan Forward, “eles se desfazem em elogios quando cedem a seus desejos mas esquecem quando o outro permanece firme”.

 Dúvidas e medo

“Ninguém pode machucá-lo sem o seu consentimento” (Eleanor Roosevelt

 A pessoa vulnerável a ser manipulada ou aceitar a chantagem emocional costuma ter baixa autoestima, vive sem rumo, perdeu o sentido de sua vida, é muito ingênua, não possui bom senso, depende do outro, teme a solidão. Forward considera essas características: um alto nível de dúvidas sobre si mesmo, um profundo medo do conflito, a necessidade de paz a qualquer preço, uma necessidade exagerada de aprovação, a tendência a assumir muitas responsabilidades em relação à vida de outros.

 O caminho para a autonomia emocional começa no momento em que percebemos que estamos sendo manipulados. Devemos ouvir a nossa intuição e estarmos consciente do que sentimos. Às vezes é preciso colocar alguma distância para observar de longe o que estamos vivendo e perceber o que queremos e que é preciso definir limites. É importante reconhecer que sua responsabilidade em qualquer situação de manipulação na qual estiver envolvido é sua contribuição à mesma. O processo de responder a qualquer pessoa ou situação é algo que acontece em você. Ninguém pode fazer com que sinta nada sem sua permissão.

 Recuperar nosso poder

 “Podemos mudar o comportamento e conseguir que outros mudem os deles” (Josep Redorta)

 Para alcançar e manter um estado de plenitude, é preciso saber o que o aproxima da plena realização e aquilo que o afasta dela. Você deve se arriscar positivamente ao se conceder poder, liberar-se de qualquer aspecto que faça sombra e permitir que seu ser se manifeste com todo seu potencial. Para conseguir isso, deve ter a soberania sobre seu mundo interior e assegurar de não deixar portas abertas à submissão. Quer dizer, é preciso definir limites, não ficar preocupado desnecessariamente e não se alegrar na dor nem na sensação de estar sendo vítima. Porque se por um lado se fortalece e por outro se enfraquece, não vai conseguir manter o foco no poder interior que precisa para viver livre de dependências emocionais.

 Para recuperar a soberania pessoal, revise suas crenças. Você acha que para ser amado precisa sempre agradar o outro? As preocupações dão saúde, bem-estar, ajudam a canalizar a energia de sua mente, a encontrar soluções? Você se beneficia de agradar o outro renunciando ao que é melhor para você? Se a resposta for não, revise por que mantém esses comportamentos.

 Estabeleça limites e expresse suas necessidades

 Para evitar o conflito, costumamos ceder aos pedidos do outro contra nosso bem-estar interior. A necessidade de paz a qualquer preço nos deixa doentes, pois não colocamos limites, não declaramos nossas necessidades e nos tornamos dependentes das decisões e atitudes do outro. É importante não ter medo de irritar o outro. O medo diminui nossa capacidade de responder assertivamente sem ser manipulado. Quando estamos na defensiva, mostramos ao manipulador que estamos sob sua influência, e ele ou ela vai se regozijar com o poder que tem sobre nós. Assim o alimentamos. Podemos ser assertivos, comunicar sem atacar e sem ficar na defensiva. Se o seu relacionamento com o outro estiver baseado em uma necessidade, na constante busca de gratificação, vai tentar que a pessoa satisfaça suas carências. Ao se relacionar a partir da necessidade, é inevitável que existam expectativas, conflitos, frustração. Enquanto nos relacionarmos com o outro a partir de nossas necessidades dependentes, as relações continuarão sendo ninhos de conflitos, de mal-entendidos e de manipulação. Ao contrário, relacionar-se com o outro a partir da plenitude do nosso ser nos oferece um vínculo criativo e complementar.

ORIGEM DO TEXTO: http://brasil.elpais.com/brasil/2012/09/21/estilo/1348239424_807155.html