quinta-feira, 25 de junho de 2015

Como é que se recarregam as mães? - POR SOFIA ANJOS



Preciso urgentemente de um carregador de mães. É que estou quase a ficar sem bateria. Alguém tem um aparelho destes? Agradecia a gentileza de me emprestarem. Prometo carregar-me durante a noite e, amanhã, com os neurônios reativados, não me esquecerei de o devolver a quem de direito. Estou disposta a pagar, qualquer que seja o valor de aluguel à hora. Já procurei em lojas de tecnologia e puericultura, em bazares chineses e até no OLX, mas não encontrei nada. Nem sequer nos sites de clubes de mamas. Expliquem-me: como é que se recarregam as mães?

Cheguei também a enviar e-mails à Apple e à Microsoft, esperançosa que me indicassem onde comprar este gadget, mas não obtive resposta. Enfim, admito a possibilidade de a minha caixa de mensagens cerebral estar cheia e devolver o correio. Só que não posso gastar a pouca energia que me resta em limpezas.

Oh! Mas há mais, muitas mais mães assim: quase a apagarem-se. São mães cujo tempo diário de utilização gera tamanho tráfego no seu sistema maternal, que se lhes reduz o desempenho. Algumas, antes das 11h da manhã:

– Desculpe o atraso, chefe. É que o meu filho acordou às 6h a gritar por leitinho, e eu dei-lhe, mas depois gritou mais alto porque afinal era peitinho que queria, e eu dei-lhe, e logo veio novo berro enquanto se rebolava e apontava para a barriga e, ouvindo melhor, lá percebi que era um peidinho e dos grandes. De maneira que tive de o enfiar no banho e depois foi uma cena para o tirar dali de dentro, e eu cheia de pressa, e o menino que nunca quer lavar a cabeça, desgraçado, a brincar aos cabeleireiros... Bem, vou só tomar um cafezinho, se precisar de alguma coisa, diga.

Mas a maioria das mães é ao final do dia, quando chegam a casa e se preparam para tratar dos filhos, que começam a vibrar num piscar intermitente que anuncia: 10% de bateria maternal restante. Consigo imaginar esta percentagem inscrita na testa das mamãs. Em leds vermelhos. Seria benéfico para toda a família saber a “quantas anda” a bateria da mamã.

E se é inacreditável ainda ninguém ter inventado um carregador de mães, o que parece realmente extraordinário e que está por desvendar, é mesmo isto: a capacidade destes 10%. Porque o limite de uma mãe, rende infinitamente. Aguenta até ao banho estar tomado, o jantar feito, a história contada, a criança adormecida, a loiça lavada e os brinquedos arrumados. Aguenta ainda o suficiente para dormir a noite toda em modo silencioso mas ligado para qualquer emergência.

Já a minha filha, nativa digital, nasceu com carregador incorporado. Basta deitá-la à noite pois não necessita de ligações para despertar com a energia a 100% e a gritar – “Bom dia! Estou aqui!” Pontualmente, às 8h da manhã. A miúda tem um desempenho excelente ao longo de todo o dia.

É filha de uma mãe de última geração. Apesar de o meu modelo não ser o mais estético e elegante – custa-me muito reduzir o meu peso. Mas tirando isso, sou fiável. Estou lá desde que ela nasceu, não falho um colinho, mantenho a pediatra, a farmácia e as avós na lista de favoritos dos meus contacto, desdobro-me em mil aplicações – gratuitas – para todas as suas necessidades: horários de alimentação, listas de supermercado, lembretes de remédios a tomar, vídeos de cada nova gracinha que faz e ainda guardo na memória músicas para lhe cantar. O mais bonito deste amor tão digital é a nossa perfeita sincronização.

Raras vezes bloqueio. Mas se acontece, basta fazerem-me uma festinha para desbloquear pois sou muito táctil. E nunca fiquei sem bateria. Mas há dias em que me assusto valentemente e receio sofrer um blackout, ou aparecer-me um 0% escarrapachado na testa, ou ficar sem resposta, ou perder-me no meio da rua, ou esquecer-me enterrada no sofá. Pode acontecer aos melhores equipamentos, não pode? Bom, vou continuar à procura de um carregador pois não posso arriscar perder as minhas funcionalidades maternais. Até porque se me apagar, o mais certo é não recordar a palavra passe para me restaurar.