quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Quem é mais inteligente: uma criança ou um chimpanzé?

Até certa idade, crianças e chimpanzés têm habilidades cognitivas parecidas


 POR
Justin Gregg Da BBC

Até certa idade, crianças e chimpanzés têm habilidades cognitivas parecidas Aprender a "ser humano" pode ser um caminho longo e árduo. É preciso aprender coisas tão díspares como fazer um bolo, conhecer um pouco de história da China e entender o funcionamento de equações matemáticas. O procedimento para humanos dura alguns anos, mas na natureza há exemplos de técnicas complexas que são aprendidas em poucos minutos.

 O filhote de gnu-azul da África, por exemplo, aprende a ficar de pé e correr mais rápido que seus predatores em apenas poucas horas depois de nascer. Nesse aspecto, como em vários outros, os humanos são parecidos com os chimpanzés. O filhote precisa de anos de infância e contato com os pais para observar, imitar e aprender.

Em geral, pensamos que as tarefas aprendidas por um humano na infância são muito mais complexas do que a dos chimpanzés. Mas será que isso é mesmo verdade? Nem sempre. Uma tarefa cognitiva considerada complexa é diferenciar entre obras de Picasso e Monet. Mas experiências feitas com abelhas e pombas mostram que até espécies com cérebros pequenos são capazes de fazer isso. O experimento foi feito colocando comida atrás de quadros de Picasso e de Monet. Tanto abelhas como pombas conseguiram achar o alimento certo identificando apenas o quadro visualmente. A experiência mostra que habilidades cognitivas aparentemente complexas são na verdade presentes em várias espécies - até nas mais simples. Chimpanzé criado como humano Quando a comparação é feita entre humanos e chimpanzés, as diferenças nas habilidades cognitivas cedo na vida são muito pequenas.

No passado, psicólogos chegaram a considerar se a diferença entre humanos e macacos se dava mais devido a tradições culturais e acúmulo de conhecimento do que necessariamente por diferença entre os cérebros. Seguindo essa lógica, um chimpanzé criado entre humanos poderia desenvolver habilidades linguísticas e hábitos sociais.

Uma experiência feita nos anos 1960 tentou elucidar esta questão. Em 1966, os psicólogos Allen e Beatrix Gardner, da universidade americana de Nevada, compraram uma chimpanzé fêmea de 10 meses de idade, batizada de Washoe.

Chimpanzés conseguem aprender linguagem de sinais Os psicólogos se esforçaram para criar um ambiente semelhante ao que teria qualquer criança humana. Washoe vestia roupas humanas e comia à mesa junto com os humanos.

Como os chimpanzés não possuem as estruturas vocais dos humanos, Washoe aprendeu a se comunicar com linguagem de sinais. Em 1970, ela já conseguia se manifestar usando centenas de sinais. Para alguns, o animal mostrou capacidade mental avançada ao conseguir combinar símbolos para formar novas palavras.

Na primeira vez em que viu um cisne, Washoe combinou as palavras "água" e "pássaro" para se expressar. A experiência feita pelos Gardeners deixou claro que apenas o convívio social não é suficiente para desenvolver a mente de chimpanzés ao mesmo ponto dos humanos. Colaboração x rivalidade A pergunta que é feita até hoje é: o que acontece com a mente das crianças que faz com que em determinado ponto elas evoluam muito mais rápido que os chimpanzés no uso da linguagem?

E como isso define a inteligência humana - que nos fez chegar à Lua? Para Michael Tomasello, psicólogo e co-diretor do Instituto Max Planck de Antropologia da Evolução de Leipzig, na Alemanha, a explicação pode estar na mentalidade de colaboração desenvolvida por humanos. "Apesar de os ancestrais símios dos homens também serem sociais, eles viviam de forma individualista e competitiva. Já os humanos logo cedo foram obrigados por circunstâncias da natureza a ter vidas mais cooperativas, e o pensamento foi direcionado para achar formas de coordenar a ação com outros e atingir metas coletivas.

E isso mudou tudo." Essa intenção de colaboração, que é rara no mundo animal, seria a grande habilidade que uma criança humana possui - e que os chimpanzés não têm.

 Crianças conseguem apontar - um sinal de colaboração raro no mundo animal Um dos "enigmas" a ser decifrado é a forma como humanos apontam para objetos. Os chimpanzés também apontam para objetos que querem. Mas cientistas acreditam que o animal estaria passando uma mensagem diferente dos humanos quando imita o mesmo gesto.

O chimpanzé pode estar simplesmente manifestando sua intenção: "quero aquela banana". Mas a pergunta feita pelos cientistas é se o macaco quer estabelecer uma comunicação com um interlocutor. Nesse caso, a mensagem seria "por favor, eu quero que você me alcance aquela banana".

Para humanos, estas mensagens convidando a uma colaboração são comuns. É como pedir o saleiro na mesa sem falar nada, só apontando para o objeto. Os dois humanos envolvidos na situação entendem e colaboram. Em uma experiência recente, comparando chimpanzés e crianças de um ano de idade, essa diferença de comportamento ficou evidente. Ambos foram colocados diante de um objeto que queriam, mas que estava fora do seu alcance.

 A criança ficou sentada apontando para o objeto, olhando para a pessoa que a cuidava. Já o macaco apontou, mas gesticulou e tentou se mover em direção ao objeto. Para os cientistas, a atitude da criança mostra que ela estava ciente de que um mero gesto seria suficiente para impelir outra pessoa a colaborar. Quando chimpanzés são mais espertos Por outro lado, algumas habilidades cognitivas dos chimpanzés na infância são muito maiores do que a dos humanos. Outro experimento envolvendo pensamento estratégico colocou chimpanzés e humanos uns contra os outros. Os participantes participaram de um jogo de computador no qual precisavam escolher entre dois quadrados que surgiam na tela. O jogador número um vencia quando ambos os jogadores escolhiam o mesmo quadrado. O jogador número dois vencia quando ambos os jogadores escolhiam quadrados diferentes.

Em alguns casos, chimpanzés são mais inteligentes que humanos Ao final de cada partida, cada jogador via qual quadrado tinha sido escolhido pelo seu rival. Isso permitia que, com o tempo, eles pudessem estudar o comportamento do rival. A cada partida, prêmios eram distribuídos: dinheiro para os humanos, pedaços de maçãs para os chimpanzés.

Se os jogadores sempre fizessem as melhores escolhas, o jogo seguiria um padrão lógico previsto pela teoria dos jogos. Mas depois de algumas rodadas, apenas os chimpanzés adotaram uma estratégia semelhante àquela prevista pela teoria matemática. Os humanos não conseguiram desenvolver esse pensamento estratégico.

Então como os humanos foram inferiores aos chimpanzés? Pesquisas anteriores mostram que esses animais possuem memória visual melhor que os humanos, e que isso os ajudou a trabalhar melhor questões estratégicas. Uma experiência feita com o primata Ayumu, no Japão, mostrou que o animal foi capaz de memorizar a posição de nove dígitos em uma tela em apenas 0,67 segundos. Os humanos não chegaram nem perto desta marca.

 Essa memória visual daria aos chimpanzés uma vantagem sobre os humanos. Cientistas também acreditam que outra explicação possível é o instinto ultracompetitivo dos chimpanzés. Sabe-se que no mundo animal, os chimpanzés estão sempre tentando superar os demais em seu convívio social. Esse instinto pode ajudar os chimpanzés a fazer estratégias e complôs com mais facilidade

ORIGEM DO TEXTO: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141015_vert_fut_chimpanze_crianca_dg