quinta-feira, 3 de julho de 2014

A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração - PARTE II

Flossenbürg


POR
(Texto) e
           
Nesta segunda parte da investigação do PÚBLICO sobre os portugueses enviados para os campos de concentração, contamos quem foram as mulheres que também não escapa-ram às perseguições nazis. Revelamos como a história de Casimiro foi resgatada pelo sobrinho francês e como o algarvio faz hoje parte da memória de uma pequena aldeia nos Pirenéus. E como o International Tracing Service ainda aguarda que algum familiar de Paulo reclame o que ele deixou para trás.
François Vallon conheceu Maria Barbosa em 1962, no restaurante de Lyon onde ela trabalhava. François tinha 28 anos, Mariette, como era tratada em França, 40. “Ela trabalhava na cozinha, mas às vezes servia à mesa. O primeiro contacto que tivemos foi por causa do meu nome: ela disse-me que eu tinha o mesmo nome do irmão dela, desaparecido após a deportação para a Alemanha.” François, hoje com 80 anos, está sentado na sala da sua casa, a poucos quilómetros da pequena localidade de Port-Sainte-Marie, no Sudoeste de França. O cemitério onde repousa Maria Barbosa, com quem se casou em Novembro de 1964, fica a poucas dezenas de metros da habitação, no topo de uma subida acentuada, que François percorre amiúde, desde que a portuguesa morreu, em 2008. Na campa, o marido de Mariette colocou duas placas: uma que identifica a mulher como “antiga deportada”; outra dedicada ao irmão dela, Francisco Barbosa da Costa, com a indicação “morto durante a deportação”.
Os irmãos Barbosa, Mariette e Francisco, chegaram a França ainda crianças, acompanhados por uma irmã mais velha, Rosa, e pelos pais, João Barbosa e Diolinda de Magalhães. Os três filhos do casal Barbosa tinham nascido em Vilar das Almas, Ponte de Lima, onde a família residia antes de se instalar na região de Lyon, em França. Aí, João e Diolinda teriam ainda mais dois filhos.
Mariette, nascida a 23 de Fevereiro de 1922, tinha apenas 17 anos quando a guerra rebentou, mas em 1944 a jovem portuguesa de 22 anos, que residia, então, em Saint-Fons, estava já envolvida no combate ao nazismo. “Não sei [se ela era politizada]. Certamente um pouco. Em 1944, ela vivia maritalmente com um homem e ele, sim, era envolvido politicamente”, recorda François Vallon.
A portuguesa foi detida a 10 de Janeiro de 1944, durante uma operação desenvolvida pela Milícia francesa, uma organização ao estilo da Gestapo alemã e que funcionava em articulação com ela. François guarda ainda a página de um jornal local francês, cuja data e o nome desconhece, na qual é descrita a operação que levou à detenção daquela que haveria de ser a sua mulher.
Naquela segunda-feira à noite, pelas 20h, Mariette estava numa casa conhecida como Pommerol, alugada por Edmond Partouche, resistente do maquis da localidade de Azergues, ligado à rede resistente comunista Francs-Tireurs et Partisans Français (FTPF). Segundo o artigo, Mariette integraria uma outra rede, baptizada com o nome da primeira resistente de Lyon condenada à guilhotina pelo regime de Vichy, em 1943, Émile Bertrand. René Fernandez, um jovem de 18 anos que se ia encontrar com o grupo, apercebeu-se da movimentação da Milícia na rua onde se encontravam os amigos e ainda os tentou avisar, mas acabou por ser assassinado.
No interior da casa estavam Mariette Barbosa, Antoine Garcia e Daniel Agnes. Antoine é ferido num braço e consegue fugir, mas Mariette e Daniel são presos. “A minha mulher dizia sempre que a pessoa que foi presa com ela estava ali por acaso. Era um amigo de pessoas que pertenciam à Resistência, conhecia-os, queria vê-los, mas acabou detido”, relata François Vallon.
O cartão de deportada de Maria Barbosa

Para a jovem portuguesa, começava uma jornada de sofrimento que, ao longo dos anos, sempre teve relutância em recordar, como conta o marido: “Ela evitava falar e, quando via os documentários na televisão, dizia sempre: ‘Estão longe da verdade.’ Mesmo em Ravensbrück, mas sobretudo em Bergen-Belsen. Este era um campo que existiu durante muito tempo, mas no fim da guerra eles tentaram colocar ali toda a gente e era mais um lugar onde se morria. Ela explicou-me coisas… Que [os prisioneiros] eram obrigados a transportar os cadáveres e que, às vezes, as mãos ou os braços deles lhes ficavam nas mãos, por causa do elevado estado de decomposição.”

Depois da rusga em Saint-Fons, Mariette esteve detida na prisão Montluc, em Lyon, até ser transferida para Compiègne, a 25 de Janeiro. Do pouco que Mariette lhe contou, François acreditava que a mulher tinha estado apenas nos campos de concentração de Ravensbrück e Bergen-Belsen, mas a verdade é que os arquivos do International Tracing Service (ITS), na Alemanha, que guardam todos os documentos sobre os campos de concentração nazis, têm vários registos que apontam para a presença de Mariette também no campo de Neuengamme, onde lhe atribuíram o número de prisioneira 5575. Não é de estranhar que tal tenha acontecido, uma vez que, como conta o investigador Pierre-Emmanuel Dufayel, em Un convoi de femmes, o livro que escreveu, dedicado ao transporte em que Mariette foi deportada: “Perto de 70% das mulheres que deixaram Compiègne a 31 de Janeiro foram transferidas ou empregadas num comando satélite. De Hamburgo à Checoslováquia, as ‘27.000’ seleccionadas para o trabalho foram dispersas por 17 campos diferentes.”
É provável, por isso, que Mariette tenha sido transferida para um dos subcampos de Neuengamme e que, com a ordem de evacuação destes comandos, a 24 de Março de 1945, tenha sido enviada para Bergen-Belsen, onde, segundo o marido, chegou a contrair tifo, uma das doenças que ali grassavam.
Por esta altura, Bergen-Belsen estava transformado num verdadeiro campo de morte, com os prisioneiros abandonados à sua sorte. Inicialmente construído para ser um campo de prisioneiros de guerra, Bergen-Belsen recebe, nos últimos meses do conflito, milhares de prisioneiros de outros campos. Os alemães desistem de tentar lidar com a ausência de comida e as epidemias e deixam de entrar no campo, que se transforma num terreno em que os vivos convivem com os mortos tombados no solo e onde, como noutros campos, há relatos de canibalismo entre os prisioneiros esfomeados. O estado de grande parte dos detidos era de tal modo deplorável que a chegada dos britânicos, a 15 de Abril, e as medidas de emergência implementadas nas semanas seguintes não foram suficientes para impedir que mais de 13 mil pessoas morressem após a libertação. Mariette, contudo, sobreviveu. O seu nome consta numa lista de “repatriadas francesas” feita pelos próprios prisioneiros, com a indicação de que foi retirada do campo a 17 de Maio, “por camião”. A portuguesa chegaria ao Hotel Lutetia, em Paris — que desde a libertação da cidade funcionou como um centro de repatriamento para prisioneiros de guerra e dos campos de concentração e deslocados —, a 24 de Maio.
Para Mariette, a guerra não tinha, contudo, ficado para trás. A família não a recebeu de braços abertos e acabou acolhida por desconhecidos. “Ela contou-me uma coisa que a marcou, quando voltou a ver os pais. O seu pai fez uma reflexão pouco simpática. Ele disse-lhe: ‘Deixaste-te apanhar’, como se fosse um jogo de polícia e ladrão”, conta François Vallon. Maria descobriu, então, que o seu irmão Francisco também fora deportado e que, ao contrário dela, não regressara.
A portuguesa nunca saberia que o irmão estivera ao mesmo tempo que ela em Bergen-Belsen e que morrera lá. Em 1947, o Ministério dos Antigos Combatentes e Vítimas de Guerra emitiu um “Acto de Desaparecimento” referente a Francisco, confirmando que ele fora detido e internado a 27 de Fevereiro de 1944 em Lyon e que “não existiu qualquer outra informação [sobre ele] depois de 27 de Junho de 1944”. Sem saber a razão da detenção do irmão, apesar de suspeitar de que ele se envolvera, de alguma forma, com a Resistência após a sua própria detenção, talvez na tentativa de saber o que lhe acontecera, Mariette vai continuar a procurar respostas sobre Francisco ao longo de toda a vida, incentivada, em grande parte, pelo marido, que lutou para que também ela tivesse acesso a todos os direitos concedidos aos Deportados Resistentes. Os pais e restantes irmãos de Francisco teriam, aparentemente, aceitado que ele não iria voltar. “Eles falavam muito pouco e o François [Francisco] foi rapidamente esquecido pelos outros membros da família. Ela dizia-me: ‘Eu também, se não tivesse regressado, teria sido esquecida rapidamente’”, recorda François Vallon.
Só em 2008 é que o ITS fez chegar a Port-Sainte-Marie os dados que permitiam traçar o percurso de Francisco Barbosa da Costa, nascido a 12 de Fevereiro de 1924, cerca de dois anos depois de Mariette. François recebeu a comunicação e guardou-a para si. “[Mariette] Já estava muito debilitada. A carta é de Janeiro de 2008 e a minha mulher morreu em Junho. Não quis que ela soubesse”, explica, agora, o viúvo.
As informações do ITS mostram como Francisco foi constantemente transferido, desde a sua captura e a deportação para a Alemanha, num comboio que saiu de Lyon a 29 de Junho de 1944, em direcção a Dachau, até à sua morte. Em Dachau, Francisco recebeu o número de prisioneiro 75950 e permaneceu no campo principal até 21 de Novembro, altura em que foi transferido para o comando Weiss-See. Pouco depois, a 3 de Dezembro, regressa ao campo principal, apenas para ser transferido de novo, a 12 ou 14 de Dezembro para o subcampo Ohrdruf, do universo de Buchenwald. Aqui recebe um novo número de prisioneiro — 112418 —, que continuará a usar até as tropas norte-americanas se aproximarem e o campo ser evacuado. É neste contexto que Francisco é transferido, a 20 de Março de 1945, para Bergen-Belsen. Tinha 21 anos quando morreu, de causa desconhecida.
Mariette Barbosa não soube o que acontecera ao irmão e também nunca terá sabido que o comboio que a levara para Ravensbrück tinha a bordo uma outra portuguesa, Maria d’Azevedo. François Vallon garante que a mulher nunca lhe falou de ter encontrado outros portugueses nos campos de concentração e ele não o estranha. “Ela tinha uma grande desconfiança, sobretudo em Ravensbrück, porque havia muitas suspeitas. Havia sempre o receio de que algumas mulheres pudessem falar, dar informações aos alemães”, diz.
Inicialmente construído para ser um campo de prisioneiros de guerra, Bergen-Belsen recebe, nos últimos meses do conflito, milhares de prisioneiros de outros campos

Mariette tinha 21 anos quando foi deportada, Maria d’Azevedo, nascida no distrito do Porto a 21 de Fevereiro de 1901, já tinha 43 anos e seis filhos vivos. Se, no caso de Mariette, o envolvimento com a Resistência poderá ter sido uma influência do namorado, no caso de Maria d’Azevedo era uma luta enraizada na família. O seu marido, Américo d’Azevedo e o seu filho mais velho, Maurice d’Azevedo, também foram detidos pelos nazis, pelo seu envolvimento com os FTPF.
A família Azevedo é referida logo em 1966, no livro On les nommait des étrangers… (Les immigrés dans la Résistance), em que se conta que Américo foi detido, pela primeira vez, a 1 de Maio de 1941. “O prisioneiro foi entregue aos alemães. Quatro meses de prisão pelos franceses, dois anos pelos alemães, o calvário da família Azevedo começa”, lê-se na obra de Gaston Larouche e de Boris Matline, coronel dos FTPF.
De acordo com este livro, Américo foi “perdoado” pelos alemães em 1942, depois de ter ajudado a extinguir um incêndio na prisão, mas o português regressa à luta clandestina, com os FTPF e, a 29 de Setembro de 1943, é de novo preso. “Corajoso durante a luta, foi heróico sob tortura. Nenhum nome saiu da sua boca. Espancado diariamente, as suas costas não eram mais do que pisaduras e queimaduras. O bombardeamento da prisão acaba com o seu suplício”, lê-se no livro. Ironicamente, Américo terá morrido a 18 de Fevereiro de 1944, na cadeia de Amiens, durante um bombardeamento das forças Aliadas, denominado Operação Jericó, que pretendia libertar elementos da Resistência e prisioneiros políticos.
Maria só saberá do destino do marido depois de ela própria regressar da Alemanha, para onde fora deportada, bem como o filho mais velho. O investigador francês Pierre-Emmanuel Dufayel explica à Revista 2 que Maria d’Azevedo foi presa a 17 de Novembro de 1943, “porque era uma resistente de um grupo dos FTPF, ela fazia o transporte de armas”. A portuguesa, nascida Maria da Silva, filha de Marcelino e Joaquina, foi internada em Amiens até ser transferida para Compiègne, a 25 de Janeiro de 1944. Maurice, de 19 anos, foi preso no mesmo dia que a mãe e os filhos mais novos dos Azevedo ficam sozinhos em Albert, onde a família residia, tendo sido acolhidos, segundo On les nommais des étrangers…, “pela esposa de um deportado”.
Maria d’Azevedo fica em Ravensbrück até 20 de Julho de 1944, altura em que é transferida para Buchenwald e, posteriormente, para o subcampo de Leipzig, que fornecia a fábrica de armas HASAG, onde recebeu o número de prisioneira 3845. A 13 de Abril de 1945, o campo é evacuado e Maria acaba por ser libertada, pelas forças Aliadas, durante esse processo, no início de Maio. A 21 de Maio de 1945, quatro dias antes de Mariette Barbosa, ela chega ao Hotel Lutetia, em Paris.
O registo médico feito a Maria d’Azevedo quando chegou a Ravensbrück é um dos documentos preservados pelo ITS e revela o detalhe prestado à descrição dos prisioneiros. A ficha médica diz, por exemplo, que a mulher de 66,5 quilos e 1,56 metros de altura não necessitava de esterilização, não sofria de doenças venéreas ou de tuberculose. Diz ainda que Maria tivera oito filhos e que dois morreram quando eram ainda bebés. Maria é descrita como estando, em geral, “de boa saúde”.
Os dados sobre Maurice d’Azevedo são menos abundantes. Desde logo, subsistem dúvidas sobre se nasceu no Porto ou em França, no dia 8 de Julho de 1924, já que as duas versões aparecem em documentos diferentes. Maurice deixara Compiègne dias antes da mãe, num comboio que abandonou a cidade francesa a 22 de Janeiro de 1944, e foi transportado para Buchenwald.
Aí, recebeu o número de prisioneiro 43118. Em Março desse ano, foi transferido para o comando Laura e, no final de Agosto, volta a ser deslocado, desta vez para o subcampo Dora-Mittelbau, onde os prisioneiros trabalhavam na abertura de túneis e nas fábricas subterrâneas, na produção de bombas. Não há informações sobre o que aconteceu, posteriormente, a Maurice.
Um relógio e uma aliança
Nos arquivos do ITS, não existem apenas papéis. O instituto é também o depositário de um conjunto de artefactos de antigos prisioneiros, recuperados nos campos de concentração. Em alguns casos foi possível identificar o proprietário do item resgatado e o ITS permanece na expectativa de que, um dia, alguém apareça para os reclamar. Entre a lista dos “artefactos” na posse do ITS consta apenas um com dono português. Guardado num envelope, denunciando os anos, o relógio de Paulo da Silva ainda espera para ser devolvido à família do português transportado para o campo de Neuengamme num comboio que deixou Compiègne a 21 de Maio de 1944.
Depois dos quatro grandes transportes de Janeiro, mais 12 comboios vão deixar a estação de Compiègne em direcção à Alemanha, à Áustria e à Polónia, mas o último, que deixou a cidade a 25 de Agosto de 1944, já será obrigado a voltar para trás, travado pelo avanço dos Aliados, depois do desembarque da Normandia, a 6 de Junho. Nos destinos destes transportes surge um novo local: Neuengamme. Às portas da cidade de Hamburgo, o campo criado em 1938 ganhou um novo fôlego em 1944, com o aumento da sua rede de subcampos, vocacionada para a construção e a produção de armamento. É para lá que serão enviados vários portugueses, alguns dos quais não vão sobreviver.
O relógio de Paulo da Silva foi recuperado em Neuengamme e está hoje guardado nas instalações do ITS, em Bad Arolsen

O primeiro comboio a sair de Compiègne para Neuengamme foi o que levou Paulo da Silva. Nascido a 10 de Janeiro de 1908, numa localidade identificada como Vinha, Paulo recebe o número de prisioneiro 31228. O português vai ser transferido para o comando de Fallensleben, que acolhia a fábrica da Volkswagen e o seu nome ainda aparece numa lista de contagem de prisioneiros deste subcampo de 27 de Março de 1945. Paulo terá sido depois enviado para Wöbbelin, local escolhido para a construção de um campo de prisioneiros de guerra que, a partir de Abril de 1945, se tornou o ponto de encontro de vários transportes de evacuação. Wöbbelin foi libertado a 2 de Maio de 1945 e Paulo terá tido o mesmo destino.
Obrigado, como todos os prisioneiros, a entregar os seus bens à chegada aos campos de concentração, Paulo deixou o seu relógio em Neuengamme e foi lá que aquele seria recuperado e entregue ao ITS. O pequeno relógio de pulso, com a correia em pele gasta e o tempo congelado há 70 anos, nas seis menos dez, permanece, oficialmente, como o único artefacto de um português recuperado em Neuengamme, mas isso não é verdade.
Na lista dos bens recolhidos no campo, há ainda um outro relógio e uma aliança de casamento propriedade de Manuel João.
Manuel João ia a bordo do mesmo comboio que levou Paulo da Silva para Neuengamme, tendo recebido o número de prisioneiro 31366. Seguiam ainda Richard (Ricardo) Lopes, nascido em Lisboa mas identificado como francês, e dois outros portugueses, sobre os quais nada mais se sabe e cujos nomes aparecem provavelmente truncados: Dominique Dagougna e Manuel Barrera-Gornez. Nascido em Loulé, a 31 de Dezembro de 1891, Manuel João, identificado como francês, foi detido por razões que se desconhecem e acabaria por ser transferido para Bergen-Belsen, onde não iria sobreviver às condições desumanas do campo. A 25 de Abril de 1945, dez dias depois de os britânicos terem cruzado os portões de Bergen-Belsen, morreria, com 53 anos.
Casimiro, resgatado ao esquecimento
François Martins não tinha qualquer dúvida de que o tio e padrinho, Casimiro Martins, morrera depois de ter sido deportado para a Alemanha. Mas, quando chegou à reforma e se viu com tempo nas mãos, o francês, hoje com 72 anos, dedicou-se a descobrir o que acontecera ao homem de quem só guardava uma memória muito vaga, já que Casimiro foi detido quando François tinha apenas três anos. “No dia em que fui informado, oficialmente, da sua morte… Chorei, porque… É assim. Soube que era o dia 18 de Dezembro de 1944 e que ele morreu. Uma pessoa com quem eu trabalhara, que me ajudou muito, apresentou-me as condolências. Foi um momento de tristeza e de encerramento. Foi muito forte. Uma sensação muito particular. Compreendo agora as pessoas que não fazem o luto, porque não têm as respostas para o desaparecimento do seu ente querido”, conta, na sua casa de portas e janelas azuis e uma vista larga sobre os Pirenéus, na pequena localidade de Saint-Savin.
Casimiro nascera em S. Clemente, Loulé, a 12 de Março de 1906, filho de Manuel e Maria Teresa Martins Bota. Dos nove filhos do casal, Emmanuel terá sido um dos primeiros a emigrar, partindo para França ainda na década de 20. François, filho de Emmanuel, acredita que o pai terá atravessado Espanha a pé, chegando a Arcizans-Avant, uma aldeia vizinha de Saint-Savin, “em 1924 ou 1925”, para trabalhar na construção da barragem local, que deu origem ao lago, artificial, de Arcizans.
Em 1932, Emmanuel casou com uma francesa e os filhos chegaram rapidamente. Quando Casimiro chega a Arcizans-Avant, para se juntar ao irmão mais velho, já este constituira família e se naturalizara francês. “O meu tio também veio trabalhar no estaleiro da montanha. Era um grande estaleiro, porque se faziam muitas centrais eléctricas, muitas barragens. Havia uma actividade muito grande”, recorda François.
“Simpático”, solteiro e “sempre disponível” para atender os pedidos dos seus vizinhos, Casimiro conquistou a simpatia dos moradores. Instalou-se num quarto de uma casa conhecida no dialecto local como Caillau (Calhau) e a vida parecia correr-lhe bem. Mas no sábado, dia 10 de Junho de 1944 tudo mudou.
Sem suspeitar de que a sua vida estava prestes a sofrer uma reviravolta da qual não iria recuperar, Casimiro vai trabalhar e acaba por ser detido pela polícia alemã na cantina da empresa, em Sassis. Com ele são também detidos dois irmãos espanhóis, Antoine e José Montaner. Um conhecido da família vê Casimiro ser transportado num camião e avisa Emmanuel. O pai de François procura saber o que se passou, mas das autoridades recebe apenas a indicação de que Casimiro já tinha sido levado para a prisão de Saint Michel, em Toulouse. O algarvio apela então ao cônsul português em Pau que, a 28 de Junho, escreve ao prefeito dos Altos Pirenéus, em Tarbes, pedindo informações sobre Casimiro. “Se o motivo da sua detenção for insuficiente, peço-lhe, senhor prefeito, que o liberte”, escreve o cônsul. A resposta, de 30 de Junho, é curta: “Em resposta à sua carta, tenho a honra de o informar que efectuei diligências junto do comandante da polícia de segurança alemã sobre o seu cidadão, Casimiro Martins, detido pelas autoridades alemãs no dia 10. Ele indicou-me que o Sr. Casimiro Martins foi acusado de ter fornecido provisões a terroristas.” “Ponto” – diz agora François Martins –, “foi tudo o que se fez. Não houve qualquer outra acção.”
Casimiro Martins morreu no campo de concentração de Neuengamme, perto de Hamburgo

O sobrinho de Casimiro admite que o tio podia, de alguma forma, ter-se envolvido a outros níveis com alguma rede de Resistência — falava-se em armas, na produção de bombas —, mas se houve alguma denúncia nesse sentido, os alemães não se deram ao trabalho de a usar como motivo para a sua detenção. Casimiro foi enviado para a prisão de Saint Michel, onde permaneceu até 2 de Julho, quando foi colocado a bordo de um comboio, em direcção a Bordéus. Daqui, o comboio tenta seguir viagem para norte, mas é apanhado por ataques dos Aliados e acaba por regressar a Bordéus, de onde só voltará a sair a 9 de Agosto, para uma viagem alucinante, recheada de paragens, ataques da Resistência, fuga de prisioneiros e a esperança constante de que a viagem seja definitivamente interrompida. Não foi e o “Comboio Fantasma”, como ficou conhecido, acabou mesmo por chegar ao campo de concentração de Dachau, a 28 de Agosto de 1944.
A bordo, além de Casimiro, leva nove outros portugueses e, destes, pelo menos três irão morrer antes do final da guerra: Alberto Mateos, 46 anos, de Serpa, morre em Dachau a 29 de Abril de 1945; Delfim Ribeiro da Cunha, 56 anos, casado, com dois filhos, morre a 4 de Abril de 1945, no campo de Mauthausen, para onde fora transferido; Tomás Vieira, 44 anos, de Albufeira, também é transferido para o universo de Mathausen e é aí que é registada a sua morte, às 17h45, do dia 16 de Novembro de 1944. Causa: broncopneumonia e problemas cardíacos.
Sobre Abel Carvalho, nascido a 4 de Fevereiro de 1890, em Vila Verde, e José Oliveira Varjia (?), nascido a 7 de Outubro de 1895, que também seguiam no mesmo transporte, não foi possível obter mais dados, mas João Fernandes, nascido a 5 de Junho de 1908 ou 1911, num local identificado como Gondariz, terá sido detido durante uma “rafle” alemã à aldeia Mouleydier, a 21 de Junho de 1944, que resultou no fuzilamento de 22 membros da Resistência e na detenção de 87 homens, conduzidos para Bergerac.
João foi transportado desta cidade para a prisão no Fort de Hâ, em Bordéus, onde se juntou ao grupo de prisioneiros do “Comboio Fantasma”. Passou por Dachau, Mauthausen e pelo campo de Natzweiler-Struthof, antes de ser libertado e regressar a França, em Maio de 1945. Os outros sobreviventes deste transporte são José Agostinho das Neves, nascido a 25 de Maio de 1905, em Lisboa — um anarquista que chegou a França depois de passar pela Guerra Civil de Espanha e que havia de se fixar em Paris, onde foi jornalista —, e Américo da Costa, nascido a 13 de Junho de 1896, no Porto. Sobre o último português deste grupo, internado no campo de Vernet antes da deportação, não há certezas quanto ao destino. António Ferreira, 49 anos, foi transferido para um subcampo de Flossenbürg, a 23 de Janeiro de 1945, e para o campo de Bergen-Belsen, a 7 de Março. O rasto perde-se aí.
Por essa altura, já Casimiro perdera a vida no campo de Neuengamme, para onde fora transferido a 22 de Outubro de 1944, uns escassos 52 dias depois de ter chegado a Dachau. Em Neuengamme, o português com o número de prisioneiro 61393 não chega a sobreviver dois meses, sucumbindo, às 7h50 do dia 18 de Dezembro de 1944 a uma suposta “infecção do intestino”. O seu corpo terá sido cremado.
Em Portugal, a família sabia que ele tinha sido preso e enviado para a Alemanha, mas mais nada. “Foi um filho que partiu, que se perdeu. Eram nove, ficaram oito, o meu pai [também] já tinha partido… Era assim com as grandes famílias em Portugal, era preciso partir”, diz François Martins. Em França, Emmanuel deixou de falar do irmão. “Não falávamos do assunto porque não havia nada a dizer. O meu pai devia sofrer, de certeza, por não ter informação, mas não dizia nada”, acrescenta o homem.
François recorda-se de ouvir o pai falar, uma única vez, de Casimiro. Foi em “1949 ou 1950”, quando a rádio anunciou que um grupo de prisioneiros tinha sido libertado da Sibéria. François recorda-se de, nessa altura, o pai ter manifestado a esperança: “Talvez Casimiro esteja entre eles.”
Não estava. Casimiro Martins foi um dos portugueses mortos nos campos de concentração, resgatado ao esquecimento pela teimosia do sobrinho francês. Em 2010, François Martins conseguiu que o tio recebesse o título de Deportado Resistente e, posteriormente, que fosse considerado como Morto pela França. “Uma grande honra”, diz. Nessa altura, o autarca de Arcizans-Avant disse a François que queria inscrever o nome de Casimiro no monumento da aldeia aos soldados locais enviados para a I Guerra Mundial. Na cerimónia simples, em 2012, François fez um pequeno discurso, contando aos habitantes quem fora Casimiro e o que lhe acontecera. Hoje, o nome do português, em letras douradas, destaca-se da pedra gasta que comemora os heróis de 1914-18.
O português que deixou o Algarve à procura de uma vida melhor em França e que acabou morto, com 38 anos, num dos campos de horrores dos nazis, juntou assim o seu nome à História. Pelo menos, à história daquela pequena aldeia francesa aos pés dos Pirenéus.
Não fora a persistência de François e Casimiro não passaria de um nome numa lista de transporte de deportados, de quem a família portuguesa já praticamente não guardava memória. Casimiro não sobreviveu à guerra, não teve tempo de tentar recuperar da experiência traumática do internamento num campo de concentração. Maria Barbosa regressou a França e iniciou uma nova vida, apesar de “nunca ter chegado a separar os alemães de hoje dos nazis do tempo da guerra”, como refere François Vallon. O casal adoptou um filho e Maria pôde ver nascer os netos. “Era uma boa mulher. Não se notava o sofrimento que tinha tido. Gostava de rir, de divertir-se. Tinha ganho um novo gosto à vida, embora o que ela passou não pudesse ser apagado. Estava num canto da sua memória, era uma parte da vida dela que não gostava de recordar”, conta o francês.
Maria recusou-se sempre a regressar à Alemanha. Nunca quis visitar os memoriais de Ravensbrück ou Bergen-Belsen, mas visitou Portugal uma única vez, com o marido e os sobrinhos. Os planos para voltarem mais tarde, numa visita mais íntima, apenas com o filho, não se chegaram a concretizar. Nessa visita única a Ponte de Lima, François Vallon recorda-se do momento em que cruzaram a fronteira portuguesa e de a mulher dizer: “Estou de volta ao meu país.” Ela, que sempre recusou juntar-se às associações de deportados e de antigos resistentes, confidenciou ao marido, nos últimos meses de vida, que gostava que as autoridades portuguesas soubessem da sua história, depois de ela morrer. Maria, que sempre fez por esquecer o passado, queria que cá se soubesse que os livros de História, os filmes e os documentários que retratam o sofrimento e a dor dos campos de concentração não falam apenas dos outros. Afinal, eles também falam de nós.

ORIGEM DO TEXTO: http://publico.pt/portugal/noticia/eram-seis-menos-dez-quando-o-relogio-de-paulo-parou-em-neuengamme-1660566