segunda-feira, 3 de setembro de 2012

DO FALSO - PARTE II



"...Receamos muito mais mostrar-nos falsos pelo gosto que pelo espirito. Os honestos devem aprovar sem prevenção o que merece ser aprovado, seguir o que merece ser seguido e não se vangloria de nada. Mas para isso são necessárias grande proporção e grande correção, é necessário saber discernir o que é bom em geral e o que nos é próprio, e seguir então com a razão a inclinação natural que nos leva para as coisas que nos agradam. Se os homens quisessem se sobressair somente por seus próprios talentos e seguindo seus deveres , não haveria nada de falso em seu gosto e em sua conduta: eles se mostrariam como são: julgariam as coisas com suas luzes e a elas se apegariam pela razão: haveria proporção entre sua visão e seus sentimentos: seu gosto seria verdadeiro, viria deles e mão dos outros, e eles o seguiriam por escolha e não por costume ou por acaso.

Se somos falsos ao aprovar o que não deve ser aprovado, não o somos menos, na maioria das vezes, pela vontade de nos fazermos valer por qualidades que são boas em si, mas que não nos convém: um magistrado é falso quando se vangloria de ser corajoso, embora possa ser destemido em certas situações: deve parecer firme e seguro numa sedição que deve apaziguar, sem temer ser falso, mas seria falso e ridículo se se batesse em duelo. Uma mulher pode apreciar as ciências, mas nem todas as ciências lhe convém sempre e a mania de certas ciências nunca lhe convém e é sempre falsa.

É necessária que a razão e o bom sensos avaliem as coisas e determinem nosso gosto par lhes conferir a posição que merecem e que convém lhes conferir: mas quase todos se enganam nessa avaliação e nessa posição e há sempre falsidade nesse erro de calculo."