sábado, 28 de novembro de 2009

'É INDIFERENTE O MODO PELO QUAL MORREMOS'

"Toda a maneira pela qual um homem pensa na morte, no apogeu de sua vida e enquanto possui a plenitude de sua força, sem duvida exprime e manifesta com vigor o que chamamos de seu carater; mas a hora da morte em si, sua atitude no leito da agonia, são quase insignificantes no caso. O esgotamento da vida que declina, particularmente quando são anciãos que morrem, a alimentação irregular e insuficiente do cérebro durante esse último período, o que existe às vezes de muito violento nas dores, a novidade dessa situação da qual não se tem ainda a experiência e com muita frequência um acesso de temor, um retorno a sentimentos supersticiosos, como se a morte tivesse grande importância e se fosse necessário ultrapassar pontes da mais espantosa espécie - tudo isso não permite utilizar a morte como uma testemunha em favor da vida. Não é verdade que, de uma maneira geral, o moribundo seja mais leal que o vivo: pelo contrário, quase todos são impelidos pela atitude solene de sua companhia, pelas lágrimas e efusões sentimentais contidas ou derramadas, a uma comédia de vaidade, ora consciente, ora inconsciente. A seriedade com a qual é tratado todo moribundo foi certamente, para muitos pobres coitados desprezados durante toda a vida, a alegria mais sutil, uma espécie de compensação e de abatimento de numerosas privações". (N.)