quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A HIPOCRISIA DAS AFLIÇÕES

"Há nas aflições diversas espécies de hipocrisia. Numa, sob pretexto de chorar a perda de uma pessoa querida, choramos por nós mesmos, lamentamos a boa opinião que tinha de nós, choramos a diminuição de nosso bem, de nosso prazer, de nossa consideração. Assim, os mortos tem a honra das lágrimas que pelos vivos se vertem. Digo que é uma espécie de hipocrisia, porque nesse tipo de aflição nos enganamos a nós mesmos. Há outra hipocrisia, que não é tão inocente, porque ela se impõe a todos: é a aflição de certas pessoas que aspiram a glória de uma bela e mortal dor. Se o tempo, que tudo consome, faz cessar aquela aflição que essas pessoas de fato sentiam, elas não deixam de se obstinar em seus prantos, em suas queixas e em seus suspiros; assumem uma feição lúgubre e se empenham em convencer por meio de todas as suas ações de que seu desgosto só haverá de terminar com a vida... E há ainda outra espécie de lágrimas, lágrimas que só tem pequenas fontes que correm e secam facilmente: chora-se para ter a reputação de ser terno, chora-se para ser lamentado, chora-se para ser chorado. chora-se enfim, para evitar a vergonha do não chorar*. (L.R.)